Discutindo dor em pacientes geriátricos: quando procurar ajuda?

Pulando da dor emocional, que abordamos no mês anterior, avançamos para discutir talvez a mais difícil síndrome de ser identificada em medicina veterinária, a dor física, mais especificamente a dor crônica. Para garantir a qualidade da discussão nesse tópico, convidei a Dra. Daniela Spinardi, anestesista do Hospital Veterinário Santa Inês e integrante da equipe de dor da mesma instituição.
 
Você já parou pra pensar que o organismo dos cães e gatos envelhecem igual ao homem? Que muitas vezes apresentam as mesmas doenças e sintomatologia? Já ouviu falar que os animais tem dor crônica? Algumas vezes as pessoas me questionam sobre a dor nos animais, principalmente após iniciar um estudo mais profundo sobre esse tema. Por ser anestesista e intensivista, o controle de dor faz parte do meu cotidiano. E a dor crônica? Sim, ela também existe e pode ser controlada após ser diagnosticada. Não sou especialista na área, mas pude acompanhar bons profissionais desse ramo que muito me ensinaram e hoje aplico um pouco de conhecimento no meu cotidiano. Como diagnosticar e tratar dor aguda e crônica? Nós, profissionais da área de saúde animal, temos o compromisso ético de aliviar a dor em nossos pacientes e, consequentemente, promover um grande benefício ao mesmo. Em paciente geriátricos a incidência de dor crônica é ainda maior. Muito provavelmente devido aos quadros oncológicos e ortopédicos, principais causas de dor crônica, estarem intimamente ligados ao processo de envelhecimento do organismo.
 
A medicina veterinária em pequenos animais vem sofrendo uma grande revolução no que diz respeito a diagnóstico e tratamento. Nos últimos anos cães e gatos idosos apresentam uma sobrevida significativa. Algumas doenças evolutivas não apresentam o poder da cura e o tratamento paliativo para esses animais deve ser aplicado. De acordo com a OMS, 2002, o cuidado paliativo é a abordagem que promove qualidade de vida de pacientes e seus familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, através de prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e tratamento impecável da dor para que o paciente tenha uma vida digna.
 
Nos últimos anos tem aumentado o número de estudos sobre o reconhecimento, alívio e prevenção da dor em animais, contudo ela ainda é subtratada nesses pacientes. Para tanto, faz-se necessário que os médicos veterinários tenham conhecimentos sobre a fisiopatologia dos mecanismos envolvidos na dor e das técnicas de tratamento farmacológico e não farmacológico utilizadas para o seu controle. A experiência diária do veterinário especialista no assunto também faz parte da detecção de pacientes com dor, principalmente a cronicidade dessa dor.
 
A dor crônica é definida como uma exacerbação dos mecanismos relacionados aos estímulos dolorosos e das respostas do sistema nervoso central e periférico. Está relacionada a longos períodos de ocorrência, tornando-se uma síndrome debilitante. Possui um significante impacto sobre a atividade e qualidade de vida do paciente e caracteriza-se por uma resposta pobre às terapias analgésicas convencionais. Este tipo de dor não tem caráter protetor do organismo. A sua identificação e caracterização nem sempre é fácil, sendo que o comportamento anormal do animal, por vezes, nos auxilia na sua identificação. Já a dor aguda tem caráter protetor do organismo e geralmente ocorre até a resolução da lesão tecidual. A identificação normalmente está relacionada diretamente a estímulos nocivos identificáveis (químico, térmico, físico e mecânico). A dor aguda não tratada poderá acarretar alterações fisiológicas deletérias para o organismo, aumentar a incidência de complicações pós-operatórias e modificações comportamentais, além de estar relacionada à instalação de um processo doloroso crônico.
 
Exemplos de serviços semelhantes existentes na medicina, o paciente animal encaminhado ao ambulatório tem como características principais:
 
1. Dor decorrente de processo relacionado ao câncer (ou que poderá desencadear em algum momento da doença);
 
2. Dor advinda de processo não relacionado ao câncer, como as decorrentes de osteoartroses, discopatias, distúrbios endócrinos, procedimentos cirúrgicos (amputação, denervação, herniorrafia etc).
 
A conduta clínica será baseada no histórico e exame clínicos, além da avaliação de exames diagnósticos para indicação de tratamento farmacológico (AINEs, AIEs, opióides, antidepressivos (AD), anticonvulsivantes (AC), antaganistas NMDA entre outros) e não farmacológico (acupuntura, fisioterapia, quimioterapia, cirurgia entre outros).
 
A dor não tratada pode causar alterações cardiovasculares, respiratórias, endocrinológicas, imunológicas e comportamentais. Muitas vezes os pacientes geriátricos apresentam doenças concomitantes e a dor mal tratada pode prejudicar mais ainda o organismo debilitado. As alterações comportamentais são muito importantes para o familiar detectar que algo está errado com seu animal, como apatia, agressividade, vocalização ao toque da área dolorida, automutilação como lambedura ou mordedura excessiva, alteração da higiene e aparência dos pelos, alteração de postura e deambulação, alteração do nível de atividade, como prostração, decúbito ou constantemente sem conseguir se deitar, alteração no apetite (anorexia ou disorexia) e, consequentemente, perda peso e desidratação, alteração na expressão facial (pupilas dilatadas, olhar sem brilho e triste), salivação excessiva, dificuldade para urinar e defecar.
 
Apesar do avanço na medicina veterinária e do estudo da dor crônica nos pacientes geriátricos, diagnosticar esse tipo de dor ainda é um grande desafio para os profissionais da área de saúde animal. Os poucos serviços que oferecem ambulatório de dor necessitam de parcerias com outras especialidades, principalmente a oncologia e ortopedia na qual seus pacientes, a maioria animais idosos, apresentam maior incidência de dor crônica. Eticamente devemos tratar a dor e gerar cada vez mais qualidade de vida e longevidade para nossos companheiros.
 
Sites sugeridos para serviço do ambulatório de dor: www.dorvet.com.br e www.allcare.vet.br
 
 
Autores do artigo:
 
Daniela Garcia Spinardi, médica veterinária, graduada pela Universidade Paulista UNIP em 2007, pós graduada em anestesiologia, sempre atuou na área hospitalar como anestesista, intensivista e clínica geral. Já participou de diversos cursos de emergência e intensivismo, além de Congressos Nacionais e internacionais no setor de medicina intensiva. Sócia proprietária do canil “Vida de Cavalier” da raça Cavalier King Charles Spaniel. http://canilvidadecavalier.com.br
 
Daniel Diola Bento se graduou em 2010 pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP de Botucatu. Dedicou-se dois anos ao projeto de ensino tutorial do MEC e mais dois anos à pesquisa em patologia clínica oncológica, mais especificamente com mastocitoma. Na sequência, iniciou o programa de residência em Clínica Médica de pequenos animais pela mesma instituição e a sua monografia foi baseada em estudos de transplante de células tronco hematopoiética e mesenquimais em cães. Em 2013, após o término da residência, foi contratado como médico veterinário pela clínica médica no Hospital Santa Inês, em São Paulo, onde atua desde então.
 
 
Referências:
 
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Cuidado paliativo. 1ª ed. São Paulo: CREMESP; 2008
 
GAYNOR, J.S.; MUIR, W.W. Manual de controle da dor em Medicina Veterinária. 2.ed. São Paulo: MedVet, 2009.
 
Instituto Nacional de Câncer (Brasil). O alívio da dor do câncer. 2a ed. Rio de Janeiro: INCA; 1997.
Lamont LA. Multimodal Pain Management in veterinary medicine: the Physiologic Basis of pharmacologic Therapies. Vet. Clin. Small. Anim., 38: p.1173-1186, 2008.
 
Otero, PE. Manejo da dor aguda de origem traumática e cirúrgica. In: Otero, PE. Dor: Avaliação e tratamento de pequenos animais. São Paulo: Interbook, 2005. p. 122-41.
 
Shaffran N. Pain Management: The Veterinary technician’s Perspective. Vet Clin Small Anim., 38: p.1415-1428, 2008.
 
Yazbek KVB, Fantoni DT. Principais alterações comportamentais e intensidade da dor relatada por proprietários de cães com câncer. Rev Dor; 4:193, 2003.
 
Yazbek KVB. Avaliação da dor e da qualidade de vida em cães com câncer. Rev. Dor, 9(3): p.1297-1304, 2008.
 

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